Nossos corais passam fome?

Avaliação de algumas desvantagens no uso do skimmer.

Corais são animais, e tem muita gente que mesmo sabendo disso, os tratam como plantas. Os corais na natureza possuem tentáculos para capturar alimento. E se este alimento fosse desnecessário a saúde dos corais, eles não teriam mais os tentáculos, os teriam perdido evolutivamente, regredido.

Favia sp. com seus tentáculos expandidos.

Na natureza esta regressão do que não se faz mais necessário é muito comum. Não precisamos ir muito longe para poder observar isto, tem ocorrido com a própria espécie humana. Redução do número de dentes, pêlos, mandíbula. Aumento do tamanho da cabeça...
Não confundam com a teoria do uso e desuso de Lamarck, onde o que usamos mais se desenvolve mais. É a mais simples seleção natural, que por mais que a espécie humana possa burlá-la, descobriu-se que ela continua ocorrendo.
E um coral, que já tem mais de 100.000 anos de existência como espécie viva, não poderia ser diferente e muito mais intensa, pela escala temporal para esta adaptação envolvida. Ou seja, se os tentáculos capturadores de alimento fossem desnecessários, eles teriam deixado de existir, simplesmente, e os corais seriam lisos.

De fato alguns corais praticamente não tem tentáculos úteis. O próprio Agaricia agaricites , famoso coral placa nacional (do Henry) quase não mostra tentáculos, e tem uma área de exposição à luz bem grande. Mesmo assim eu não posso dizer que ele não apresenta tentáculos, porque simplesmente não sei se é importante, mas que quase não apresentam, de fato basta observarmos.

Mas via de regra, todo coral usa seus tentáculos para capturar algo.
As três principais fontes de alimentação para os corais são elementos do plâncton. O plâncton é dividido em zooplâncton, fitoplâncton, trípton entre outras, sendo estas três as mais importantes aos corais.

O zooplâncton consiste em pequenos organismos, que vivem ao sabor da corrente, e que se alimentam de vários tipos de organismos, mas principalmente algas unicelulares (fitoplâncton). O zooplâncton pode ser tão diverso quanto um outro ecossistema como o bêntico (do qual os recifes de coral fazem parte), portanto não posso resumir os zooplâncton em invertebrados que vivem na coluna d'água, porque estarei diminuindo sua importância.

Um radiolário planctônico

Estes organismos estão presentes em muitos metros abaixo da superfície do mar, em densidades consideráveis, e estão alimentando os corais todo o tempo. Para terem noção, um náupilio de artêmia seria um organismo zooplanctônico muito grande. A maioria dos corais do aquário tem capacidade de capturar zooplâncton, principalmente as gorgônias que quando não associadas a zooxantelas, são dependentes desta fonte de alimentação.

Por outro lado, o fitoplâncton desempenha um papel importante na nutrição dos corais, complementando junto do zooplâncton e o trípton, a fonte de energia advinda das zooxantelas. Porém, como freqüentemente o fitoplâncton tem um tamanho menor, os métodos de coleta pelos corais é diferenciado, visto que ele passaria por entre seus tentáculos. Na maioria dos casos, os corais que se alimentam de fitoplâncton (como provavelmente os Goniopora tem capacidade de fazer) usam o muco para aprisioná-lo e só então ingere o muco com as algas unicelulares do fitoplâncton aderidas. O principal coral que sabidamente se alimenta de grande quantidade de fitoplâncton são os da família Nephteidae (Dendronephthya) , os demais ahermatípicos.

O trípton é uma seção do plâncton não muito conhecida, porque não se trata de um organismo vivo, e sim de matéria orgânica particulada. Esta matéria orgânica que está em pequenas partículas, estão também ao sabor das correntes, e fazem parte da nutrição dos nosso corais, visto que há muita energia a ser digerida ainda naqueles agregados de matéria orgânica. Sem contar nas bactérias que estarão prontamente dispostas a decompor tudo que não for capaz de se defender delas. E esta matéria orgânica morta, é um prato cheio. Tais agregados são bastante ricos para os corais, e os mesmo podem capturá-los tanto através do método empregado ao zooplâncton, como pelo método empregado ao fitoplâncton.

Os corais também comem a fauna pelágica, ou bentopelágica, que são aqueles organismos que nadam, como pequenos peixes, pequenos crustáceos que se aventuram a uma nadada, e pequenos organismos do substrato e das rochas que eventualmente (principalmente a noite) nadam para se alimentar do plâncon. Não nadam de dia para evitar a predação que é mais forte.

Bom, eu gosto de fundamentar bem minhas opiniões. Onde quero chegar?

Todo mundo aqui já sabe que sou adepto de um aquário mais natural, onde utilizamos e reutilizamos seus recursos ao máximo, sem ter que retirar energia que possa ser consumida e retrabalhada pelo sistema. Filtrando o sistema como filtramos, e passando ele por tantas bombas de água, estaremos matando o plâncton e reduzindo o tamanho das partículas do trípton, ao ponto de inviabilizar a captura pelos corais.

Até que ponto isto está matando nossos corais eu não sei e nem arriscaria chutar, visto que dependeria de um estudo rígido e direcionado para tal pergunta, mas que nossos aquário tem muito menos matéria orgânica particulada (trípton) e muito menos fito e zooplâncton que o mar, creio que todos nós aqui concordamos. E que temos muito mais matéria orgânica dissolvida e nutrientes dissolvidos que no mar (nitratos, proteínas, fosfatos), creio que também é unanimidade.

Platax pinnatus, plâncton dependente

Mas filosoficamente porque isto ocorre? Bom, primeiro porque o skimmer tira muito do trípton da coluna d'água, e a parte que sedimenta não mais é disponível aos corais. E porque não favorecemos a presença de organismos do plâncton, nem que eles durem 4 horas somente no sistema. Portanto, se favorecemos retirada da matéria orgânica na forma matéria orgânica particulada, e desfavorecemos o processamento dessa matéria orgânica, e favorecemos o processamento da matéria orgânica dissolvida, fica claro que tenderemos a ter o produto final de toda essa receita de bolo: nitrato.

Se ao contrário, trabalhássemos para que esta matéria orgânica fosse processada pelos organismos ainda enquanto partículas, ela se tornaria tecido vivo do animal, e como todos aqui tem pretensão de manter os corais vivos por séculos se possível, esta matéria orgânica, ficaria retida nos tecidos vivos, (não só de corais, mas de esponjas, poliquetas, pepinos-do-mar, ofiúros, e toda gama de organismos que um aquário possui) por séculos.

Como eu disse acima, apenas filosofando...

Digo isso porque o skimmer se mostra um ótima ferramenta para compensarmos o problema da escala em que estamos trabalhando. Um metro quadrado de recife, tem muito (muito!) mais do que isso em áreas de sedimento no seu entorno, massa d'água que é constantemente substituída, entre outros processos, que por uma questão de redução de escala não podemos reproduzir. Seria ridículo um aquário do tamanho de uma piscina de 10X5, com apenas uns 400 kg de rochas e corais ao centro e seus mais de 30 cm de sedimento no entorno, pra tentar ajustar (olha que de longe estaria ajustada) as incorreções de escala.

Usar o skimmer traz vantagens e desvantagens, e dosar seu uso creio que seja a única saída. Não tenho a resposta de como fazer isto, e todos estaremos livres pra tentar. Outro fator importante de dosarmos, é o uso das bombas internas. é outro paradoxo como os skimmers. Não usando, a circulação fica fraca e deposita muito mais do que fica disponível aos organismos, e disponibilizamos a matéria orgânica de forma muito intensa ao substrato, sobrecarregando-o e não resolvendo tanto o problema dos filtradores. E se colocamos muitas bombas, acabamos por moer literalmente o plâncton vivo e trípton.

Larva de crustáceo meroplanctônica

Temos então que equilibrar, na minha opinião, seus usos. Eu estou caminhando para uma solução minha em particular, e de longe quero criar alguma "receita de bolo" para se fazer o aquário ideal, até porque isto não existe e não há só uma forma de se construir um bom aquário. Mas eu combino o uso de refúgio de velocidade não tão alta (ambiente deposicional), com todas as outras vantagens que o refúgio traz, como fotoperíodo invertido, muita macroalga, e liberação constante de plâncon na água. O refúgio de circulação baixa serve como armadilha de matéria orgânica particulada (que por mais paradoxal que possa parecer, deixando ela sedimentar no refúgio eu posso fazê-la voltar ao seistema na forma de zooplâncton, que é uma forma de alimentar os corais). Eu também nunca disse que não devemos nos preocupar em retirar as partículas orgânicas, e sim que temos feito isso e forma muito agressiva e pouco racional.

Também uso muita circulação interna no aquário, para reduzir (e seria utópico falar em encerrar) a deposição no sistema principal. Prefiro as bombas Turbelle, que tem um impeller curvo e com a parte superior fundida a uma placa circular, como as litlle giant, que são menos agressivas ao plâncton. Vou começar a dosar o uso do skimmer, inicialmente usando um controlador de ORP, mas se eu não tivesse acesso a este equipamento, usaria um timer e tentaria achar o uso ótimo para meu sistema, onde o nitrato não subisse, e a matéria orgânica permanecesse na coluna d'água por tempo o suficiente para que os organismos se beneficiassem dela.

Uso também uma tempestade simulada , de tempos em tempos, para retirar a matéria orgânica particulada daqueles cantos mais remotos do sistema, e disponibilizar aos organismos doa quário e do refúgio, aproveitando assim a "comida" que fica lá sobrando no aquário, mesmo que alimentemos o sistema no palitinho (oi contesini!).

Gostaria de salientar que não estou dando respostas ao problema. Estou levantando o problema e debatendo livremente soluções que eu acho serem viáveis, e mostrando quais pretendo usar nos próximos meses. Eu gostaria muito que todos participassem deste debate, para que possamos achar meios (pros que concordam que temos um problema de desequilíbrio de nutrientes no aquário e de alimentação) de solucionar o problema.

Afinal, não queremos ter um aquário rico em nutrientes dissolvidos (o que é ruim), sendo que as "estrelas" principais dele preferem o vivo e particulado, além de pequenos pedaços. Temos que fazer um esforço para mudar esta posição da balança em nossos sistemas, "puxando" a tendência da matéria orgânica estar presente na forma dissolvida, para a forma particulada, fácil de retrabalhar, e disponível aos animais.

Copépode Holoplanctônico

Não estou menosprezando a importância da denitrificação e trocas de água , que em muitos outros tópicos defendi fortemente, principalmente sendo retirada pelo sedimento e algas. Mas agora, estou focando em outro probelma, a falta de comida e o excesso de compostos orgânicos dissolvidos. Reduzindo a produção destes compostos, e aumentando a incorporação deles não só enquanto estão na coluna d'água quando quanto estão no sedimento ( fauna de substrato ), estaremos beneficiando a diversidade e nosso tão sonhado equilíbrio.

 

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